Aaah, podem! Homem e mulher podem partilhar simplesmente uma sincera amizade. Pode o planeta todo afirmar que não, que o sexo oposto só se aproxima (quando não é obrigação familiar, profissional, social, ou qualquer outro fator externo de imposição) se for eminente o interesse de cunho lascivo. Porém, vim aqui para refutar essa tese.
É lógico que nós também temos nosso lado investidor. Há aqueles “amigos”, antigos ou possíveis rolos futuros. Mas, há aquele amigo que é amigo. O mundo só precisa entender o funcionamento dessa relação, que é mais ou menos como amizade entre mulheres, só que, para ser bem franca, com mais cumplicidade.
Amigo que fala que a sua barriga está “molinha” (provavelmente porque não sabe empregar o termo “flácido” ainda), acha graça em apertar suas gorduras e você não se constrange por isso.
Amigo que já protestou contra a sua chatice, seu mau gosto quanto aos homens, suas fúrias, suas inseguranças, seu novo corte de cabelo... (ele te conhece bem, né? Fazer o quê?) Mas, ainda assim, mesmo já tendo previsto, ele te conforta em meio às suas crises irracionais, ou tenta suavizar os resultados dos seus dedos podres mode On, ou simplesmente joga na sua cara um intenso: “Eu sabia!”.
Amigo que atende seus caprichos, e o melhor: sem esperar nada em troca. Às vezes, só para ter sua companhia na volta da festa e poder falar dos foras que deu ou levou. Ou ainda, durante o evento, para ir com você a um lugar seguro para o xixi e azarar alguma bêbada que esteja por perto. E, na maior de todas as suas pirraças, conseguir cigarros e um lugar escondido para te ensinar fazer aquilo que você mais despreza durante a sobriedade: fumar (isso não quer dizer que, no dia seguinte, quando ele encontrar dois cigarros quebrados e uma caixa de fósforos roubada, no bolso da calça, ele vai deixar de te chamar de drogada).
Amigo que, mesmo difamando, prova as suas obras culinárias. Amigo que te ensina jogar videogame e guerreia ferozmente, mesmo você sendo uma dama inexperiente em Xbox. Amigo que não acredita em todas as suas pseudo promessas e te explica os motivos. Amigo que já te viu de ressaca, já te viu acordando, já te viu acordando de ressaca e ainda te chama de “gatinha” num momento posterior. Amigo que se sente em casa quando chega à sua casa, ou seja, já dominou todos os espaços e pessoas, inclusive aqueles que você não alcançou ainda. Amigo que salva seu Carnaval.
Amigo com quem você nem precisa falar todos os dias, nem todas as semanas, queira Deus que, pelo menos uma vez ao mês. Mas, quando qualquer ocasião te tirar do chão (seja porque desabou, seja porque você flutuou), ele não vai deixar de te ouvir por 54 minutos ao telefone. Até porque, ele também é o amigo que te quer por perto, já que, do mesmo modo, ele tem problemas conjugais, familiares, ocupacionais...
E tudo isso só funciona quando vocês se conhecem bem e bastante e mesmo assim não se intimidam com isso. Vocês não precisam se conquistar. Vocês não precisam estar sempre bem um para o outro. Vocês não precisam concordar sempre com as mesmas coisas. E, definitivamente, vocês não precisam se sujeitar um à vontade do outro. Basta somente uma mão estendida, aquela que já se faz tão presente, que você nem se lembra quando foi a última vez que precisou pedir por ela. #ficaadica