Ela foi rápida ao cruzar a sala de cabeça baixa. Ao sair do banheiro, com o nariz vermelho, reclamou de uma alergia, ou qualquer coisa assim, que lhe causava tanta incômodo nos dias frios. Não era verdade. O rubor da sua face vinha dos olhos, um pouco alterados, nada demais, apenas o suficiente para que tivesse certeza de que havia desatado em lágrimas há pouco. Tentou não conversar. Respondeu tudo monossilabicamente, sem se desviar de um falso interesse à tela. Pude notar, ao engatar em mais de duas ou três palavras, um embargo em sua voz trêmula, como se o choro ainda estivesse ali, escorrendo por dentro, esperando uma nova brecha para se apresentar. Chorou sufocada no banheiro porque não houve um só lugar em seu corpo que não estivesse possuído por aquela dor, se acumulando a tantas outras já disfarçadas com excesso de trabalho.
Eu a ouvi em seu silêncio. Reconheci todo o seu pesar sem qualquer fala. Ela, suponho, saiu sem olhar para trás, com passos firmes, cabeça erguida, mãos nos bolsos do casaco, se escondendo sob os óculos escuros e um sorriso triste. Não deve ter se virado para trás e, se não me engano, se despediu com mais intensidade do que havia planejado. Vazia, tinha se desfeito da última caixa na noite passada. Vazia, deve ter querido te contar sobre isso dentro daquele último abraço, mas o frio entre vocês foi ainda maior que o que vinha de fora. Ela quis, ainda, te dizer que bastava. Bastava de continuar se fazendo tão pequena por uma culpa que não deveria levar sozinha. Bastava de se sentir menos que você e todo seu orgulho de macho ferido. Bastava de engolir em seco para não te magoar, enquanto você fazia questão de marcá-la bem profundamente com dor sempre que possível. Quis, mas não o fez.
Chegou com o cabelo molhado, pude ver que buscou uma toalha por ali também. A chuva deve tê-la acompanhado até bem distante, sem desvio, sem procura por abrigo, enquanto dissolveu tudo que pensou jogar sobre você. E preferiu se manter sem dizer nada, tive certeza, quando recorreu aos fones de ouvidos. Lia em seu cansaço que havia escutado além do que julgava merecer. Perdida em pensamentos, vez ou outra, franziu os lábios num riso invertido. Com olhar distante, notei que tentava guardar alguma coisa. Algo que me pareceu específico para que não lhe restasse qualquer dúvida. Uma pena, mas não pude ver o que lhe sobrou. O pior de tê-la observado era reconhecer que seguiria sem sentir muito por algum tempo. Sem sentir pela mulher que se fez para agradar todos os seus desejos, saciando seu corpo no calor do dela, ou pela menina que acreditou que você seria muito mais do que realmente é. Contudo, com o que vi, ela iria realmente sentir muito quando conseguisse aceitar que não caberia num espaço tão pequeno e entender que a mulher ardente era a mesma menina sonhadora perdida em todo aquele vazio. Ainda que houvesse mais em suas mãos, quem dera se esse tão pouco tivesse vindo de outra direção.
Há pouco instante, me peguei pensando em você. Comecei com café com pão do fim da tarde, que ainda me faz tanta falta, e fui parar em sua voz que, assumo, precisei puxar do fundo da memória. Ela estava escondida ali, talvez por eu não conseguir imaginar o que me diria para me fazer ser um pouco mais nesses últimos dias. Enfim, voltei ao café ralo e doce com pão ou biscoito, olhei de longe, doeu, saí.
Tô tentando fugir mesmo. Mas parece impossível me desprender. Um programa na televisão da lanchonete, há poucos dias, me trouxe você. Acho que foi a vinheta que me acordou milhões de vezes aos domingos antes que vc conseguisse abaixar o volume do aparelho. Foi tão real a minha dor que não me contive, e ali mesmo permitir que ela falasse, escancarada em lágrimas.
Sabe o que mais me trouxe você dias atrás? O calendário. Como os dias têm passado rapidamente. Sei que você reclamaria por já estarmos tão pertos da "fogueira" e de que, para o Natal, "tá um pulo". E foi aí que me doeu novamente. As datas serão as mesmas de todos os outros anos, e precisarei me lembrar em todas que você não estará ao meu lado. Até no Natal, "a festa mais triste do ano, com pouca gente com tanto e tanta gente sem nada".
E a minha dor de cabeça? Ela veio, mesmo sem aquela latinha de Vick ao lado para acompanhar. Fiquei tão perdida. Pensei em te ligar. E não pude. Não poderei nunca mais mesmo, não é? Até se a dor for muito grande e eu não conseguir, sequer, abrir meus olhos. E, pensar assim, a tornou tão grande que não consegui, sequer, abrir meus olhos. Nem para chorar.
Outra besteira que me levou aos prantos, você não vai nem acreditar: meu travesseiro velho. Aquele cheio de bolinhas que você me deu há tanto tempo. Encontrá-lo me levou às noites em que te esperava na cama enquanto a novela, ou o programa depois dela, não acabava. Quis apertar bem forte contra meu rosto em busca de qualquer pouquinho do seu cheiro que pudesse estar escondido por ali ainda. Não encontrei nada além do tecido molhado por mim.
Você não imagina o que as manhãs de sol têm me feito também. Na casa nova, tudo é muito claro, do jeito que você sempre gostou que fosse. Não há um só lugar que falte luz, exceto por mim. Fica difícil me manter irradiante o tempo todo quando penso em como esse brilho cairia tão bem em você. Você conseguiria puxar a cadeira por toda a sala em sua busca por um pouco do "sol que faz bem pra saúde". Eu iria amar ver essa cena. Todos os dias.
E, talvez por isso, reconheço não ter sido nunca seu amor que me fez mal, mas, sim, não tê-lo. Não importa a direção, sigo sem seguir qualquer caminho. E, por tudo isso, preciso viver ao máximo, para não notar que parte de mim também morreu.
Um traço franco do que cabe no infinito. Um cheiro doce, marcante, que se mistura ao próprio ser. Uma atenção que nunca desvia o olhar. Uma firmeza inabalavelmente admirável. Um colo que não se consegue abandonar. Uma audácia quanto ao acreditar antes de todo o restante do mundo. Uma ternura ao sonhar com qualquer história maior. Uma insegurança por nunca aceitar que vive dando o seu melhor. Uma vontade de nunca falhar e, quando isso inevitavelmente acontecer, sempre conseguir contornar. Uma certeza de que nunca experimentará algo parecido, com todos os seus paraísos e padecimentos. Uma sintonia que só muitas noites insones poderiam construir. Uma confiança de que sempre haverá o sempre. Um prato que nunca está suficientemente cheio. Uma expectativa de que essa será sua melhor versão. Um pavor de que haja noites escuras demais pelo caminho longe dos seus passos. Um caso sempre a se pensar. Uma intimidade que desnuda qualquer investida de se esconder. Um ombro que nunca se importa em ficar molhado. Uma luta que nunca se perde ou ganha inteira a sós. Um som que nunca poderá ser tocado em outro ritmo. Um olhar que dispensa até palavras, mas poucas vezes o faz. Uma grandeza tão nobre que não teme se fazer menor. Uma experiência que segue rumos diferentes a cada dia. Um sofrer calado, disfarçado em qualquer sorriso torto. Um gosto de almoço de domingo com mesa cheia, mas, também, daquele pedaço escondido na vasilha no fundo da geladeira até a chegada atrasada. Um silêncio de quem compartilha um mundo. Um toque que cura até o que não se pode ver. Uma prece que floresce por mais pedras que existam no caminho. Uma luz que não consegue nunca ser menor que o próprio existir. Uma perda que, como aprendido há pouco, já sei, nunca poderei superar.
Não, não vou levar um pedaço seu. Vou sair com pouca coisa daqui. Uma porção de lembranças, mochila nas costas e nosso adeus. Não vou levar todos os retratos, nem suas promessas vãs dos últimos dias, nem a minha vontade de continuar mais um pouco. Ela também vou deixar de lado, junto com as feridas que nos causamos. Não preciso mais me apegar às mágoas, foram elas que me arrancaram de seus braços. Não que eu esteja me livrando de você, só estou me libertando do peso que nos tornamos. Viemos desatando esse nó aos poucos, fio a fio, até não existir nada além de pontas soltas, marcadas.
Ainda vai nos doer por muitos dias a cama vazia, os almoços em silêncio, as voltas do trabalho e toda a construção de planos com novas perspectivas. Mas, ainda que em lágrimas, nós já provamos saber nos virar bem sozinhos, e todo esse incômodo também poderá se tornar refúgio se tivermos coragem para enfrentar toda nossa culpa. Ao me afastar, não te tornarei menor em mim, não vou tentar te cobrir com a minha própria sensação de fracasso, não irei te pintar com os desconfortos da minha solidão. O importante será aprender a não mais nos esconder do que é sentido. Lembre-se: não se atentar a isso foi o exato motivo que nos trouxe até aqui.
Há coisas que precisarão ser maturadas, confesso. A raiva por todo silêncio, o abraço negado ao lembrarmos do que não foi, a fuga daquilo que desmoronara dia a dia... E esses traços até passarão se pudermos perdoar os nossos próprios erros ao invés de entregá-los como recompensa à dor do outro. Não precisaremos mais justificar nossas falhas nos desalinhos que vêm do lado ou recorrer a palavras cruéis para esconder que não soubemos manter esse amor. Restou restos demais, dissabor demais, urgências demais e, para te manter inteiro, precisaria me levar em pedaços. Pedaços que não se ligariam e nos reduziriam à frustração de um eterno desencontro.
Quanto às marcas, nos seguirão. Foram feitas todas com muita intensidade. Quanto a você, não precisa me odiar para sempre ou deixar de me amar agora. Quanto a mim, seguirei na tentativa de um reencontro comigo mesma. Seguirei. Mesmo sem ter a mínima ideia de como o farei.
Mesmo assim, sem consentimentos, me tiraram a energia e propuseram qualquer outra fonte que me mantivesse, ao menos, com o coração a bater. E ele bate. Se alternado entre sobressaltos e sussurros, entre esperas e corridas, entre abafos e explosões. Você, antes mesmo de mim, saberia: tenho medo do que virá sem nos termos. O que trago de você é muito grande para se tornar vazio.
Preciso me desculpar pelo pavor de me arriscar agora. Não foi assim que me ensinou, mas tenho sido medo o tempo todo. Sido o medo de dar o próximo passo, cair e não ter como me levantar. Sido o medo de continuar, me perder e ter que aceitar não haver mais para onde voltar. Fiz meu porto onde seus pés estivessem, e ali sempre teria minha terra firme. Nunca houve no mundo um lugar mais seguro que seu colo para mim. E não só por ser acompanhado de dedos se envolvendo em meus cabelos, num cafuné tão só seu, mas, principalmente, por eu me lembrar desse refúgio sempre disponível desde muito cedo. Contei com ele de menina a mulher, sem ter feito a menor diferença o peso de toda essa transição.
Desculpo-me, também, por tantas lágrimas. Elas sempre brotaram em mim. Brotaram quando não queria sair de perto de você, quando nos restavam apenas acenos do carro pelos fundos da casa. Brotaram quando não nos entendíamos. Brotaram na minha própria incapacidade de dar fim às suas angústias. Brotaram sempre que me tocava da grandeza do que nos tangia e, desesperadamente, precisava te pedir para que nunca se desprendesse. Brotaram sutis quando eu não conseguia sustentar a nossa eternidade.
Mas me faço mais em gratidão. Agradeço por nossas conversas. Conversas de cozinha, de banheiro com porta aberta, deitadas antes de dormir, nos percursos ao telefone, nas distâncias que nunca foram tão reais como têm sido agora. Agradeço também por ter me dado flores, músicas, chás e novelas. Guardo todos para repartir. E como não te agradecer por esta certeza? Certeza de que nada poderá ser maior que o nosso nó, nem todo esse peso que tenho trazido nos últimos dias.

Não é fraqueza ser tão franca, é que eu realmente tenho sentido muito. Sentido a cada vez que não posso te ligar para contar da rotina. Sentido por ímpetos que não serão acalentados em seus braços. Sentido pelas vezes que não nos deitaremos no sofá para, pela enésima vez, assistir ao mesmo filme de cachorro. Sentido por não haver mais necessidade de cuidado, de chocolate com amendoim ou castanha, de unhas pintadas e tardes com pinças e esfoliantes. Sentido por nossas parcerias desfeitas, nossas aulas de yoga, nossos sucos na confeitaria, nossas visitas inesperadas. Sentido porque perderei seu cheiro de hidrante com alguma coisa mentolada por trás. Sentido por não ter sua mão com dedinhos tortos para mexer na espera de uma consulta. Sentido por não ter mais suas frases geniais para me orgulhar em conversas quaisquer. Sentido muito por ainda precisar tanto de você para seguir qualquer rumo.
Sei que não deveria chorar. Mas, com êxito, tenho, no máximo, concentrado esforços para respirar. Não que você não mereça uma porção de sorrisos ao ser lembrada, não que eu não queira esvaziar um pouco do cinza que me cerca, só não consegui me preencher com outra coisa além da sua ausência. Você me viu chegar, eu te vi partir e o que vimos juntas nesse intervalo se tornou a própria existência. Nunca precisamos nos doar uma a outra, já éramos entregues. Agradeço pela chance de termos nos tido assim e, bem por isso, tem sido tão duro seguir sendo só metade.
Ei, menino, não chegue tão perto. Não que eu vá dizer que seja tarde demais, porque nunca o é, só não é a melhor hora. Ela já te notou, só decidiu não te ver. Já tem alguém ali, e ele jurou não ter medo. Nunca. De nada. Nem de perdê-la.
Não, menina, já te disse que não pode ser por vestígios. Tem que ser por amor. Por inteiro. Completo. Caso não, quem cuidará do cuidado, do tato, do contrato, do retrato? Viu no que deu sua teimosia?
Não entre aí, menino! Ela ainda não pode arrumar a bagunça e não quer que a conheça em cacos. Ali já foi paisagem, passagem de faísca da lua. Se não fosse a sua pressa, insistiria para que ficasse um pouco mais aí fora, à espera.
O mundo não vai entender, menina, isso não posso te garantir. Mas, desde sempre, por quantas vezes já foi assim? Você deveria reunir um pouco de forças à sua razão, até a chuva pode não passar. Eu prefiro respeitar sua espera, ainda que não consiga enxergar a razão da sua fé.
Talvez seja isso mesmo, menino. Talvez ela esteja torcendo para que a poeira baixe antes de sair de trás da porta. Não a olhe como uma covarde, ela não gostaria de estar onde está. Sei que também traz pedaço de dor sufocado em sua vaidade, e o tempo quem te ensinou a lidar com isso.
Cure o que desatou, menina. Seu sorriso não foi sempre assim, suas certezas já foram maiores. Você não deixou de fazer parte do mundo, sua dor não deve te pesar para sempre. Começo é mais fácil mesmo, fim que traz dor.
Sem planos, menino. Ela virá sem firmeza, pés trôpegos, buscando só um pedaço de chão firme para se reerguer. Eu sei que é forte o bastante para isso, só que não poderá se envolver com o rumo que ela traçar para se proteger. Ela vai precisar se direcionar sozinha antes.
Eu sei, menina, sei que tentou. Mas, às vezes, não basta só você. Seus erros e fraquezas não desfizeram tudo sozinhos, logo, seu empenho não poderia consertar nada sem ajuda. Esses soluços que te embalam o sono há tanto tempo não são causados só por loucura sua.
Seja paciente, menino. Ela vai recusar sua chegada, negar a sua entrada, se esconder do que for. Mas não se engane. Ela tem olhos de amor. Nos seus braços, ainda encontrará tanto desejo. Ela tem sede de ser o que sente, e você, desde que encostou, tem sido pedaço preciso.
Tenha calma, menina. Há gente à porta, querendo entrar para espiar o que te faz mulher como é. Pedi para esperar. Você precisa entender o que aconteceu, mesmo depois de já ter se passado. Sempre assim.
Conquiste o mundo, menino. Ele pode ser o que você quiser, até um pouco dela. Busque o que for preciso, inclusive, disse-lhe isso também, mesmo que o necessário já tenha doído ou sido perdido em outro momento.
Quanto a mim? Quem dera pudesse eu garantir qualquer coisa a vocês além do que vejo. Aí, sim, deixaria algo mais que boa sorte em meu sincero desejo.