quinta-feira, 19 de julho de 2018

Não a torne difícil

Ela não é a sua cura. Não espere isso dela. Por mais bom ânimo que tenha para te colocar um sorriso no rosto ou recomendar um remédio para suas costas, ela não quer ter o peso de ser solução para todas as dores que passam por seus dias. Ela busca ser a leveza da inspiração, não o fardo da obrigação. Ela não vai se reduzir e, definitivamente, não vai se culpar para atender as suas expectativas. Por mais que vocês se fechem em dois ou três tratos feitos na cama mesmo, com sorrisos e olhares cruzados, antes de se levantarem para um outro banho, não enxergue nisso qualquer possibilidade de se tornarem aprisionamento. Ela quer buscar o melhor dos dias, dos encontros, dos momentos, e não seria diferente em seus braços. Se ela fica, é porque a faz bem ficar.

Ela é o que desata para se reconstruir. Isso acontecerá todas as vezes em que não conseguir dar conta ou em que a dúvida for maior que o riso frouxo. O novo a assusta muitas vezes, só não a leva à estagnação. Ela não sabe não reagir, mesmo quando não faz ideia do que a espera. Ela não tem medo de pagar para ver, ainda que não seja a melhor aposta. Ela não tem medo de tentar outra vez, seja em silêncio ou aos prantos. Não que parta sem dissabores sempre, só que, há tempos, tem se conjugado no verbo ir. Descobriu que pode haver leveza quando se vai com um punhado de bons abraços, ou por uma porção de certezas, ou sem ter medo de voltar também.

Ela gosta de ser crua. Nada que a esconda cai bem em seu tom, seja por sua risada alta, firmeza em sua voz e volume de seus cabelos ou lágrimas - ela não vai conter o que vem de dentro. Ela tem se descoberto a todo instante e talvez, por esta razão, faça questão de não ocultar a versão que traduz dores e superações com as quais tem se reinventado. É escolha sua se fazer assim, despida do que pode haver somente para torná-la mais aceitável. Sua ações não são nunca para torná-la acessível. Antes de mais nada, tem tentado ser para si em todos os momentos. Ser para si mesma quando instiga, quando dança, quando discorda, quando aprende, quando excita, quando transforma, quando para. 

Ela não combina com efemeridade. Nada nela vem sem arrebatar. É rendida ao que pode verdadeiramente durar. Anda de mãos dadas à intensidade e se lança a ela, crendo sempre em sua resistência. Gosta de se aliar ao tempo, nunca de ser sua refém. Segue apressadamente em busca do que acredita, do que causa suspiros e do que precisa de atenção. Você já sabe o quanto ela consegue ser assertiva em suas convicções, não precisa provocá-la se a sua intenção for apenas discordar. Ainda que você não se acostume, ela se fará um poço de forças sem fim na maior parte do tempo, mas não se privará de desabar quando for necessário.

Ela pode ser o que te paralisa exatamente por não querer te manter, a qualquer custo, ao seu lado. Aprendeu que ter troca é melhor que ser só oferta. Ela não vai recuar somente para te manter confortável. Mas, quando realmente for preciso, ela não se incomodará em dar um ou dois passos para trás. Ela não vai te ouvir quando a sua voz buscar silenciá-la. Porém saberá se calar quando for necessário à sua resposta. Ela não vai insistir quando a sua ausência for maior que a distância. Entretanto, enquanto houver cuidado, manterá uma mão ao seu alcance. Ela não vai te apresentar um caminho, não cabe a ela te pedir para entrar. Então, mantenha a atenção para não se perder e para não a perder de vista. Ela não se vê maior do que você e, ainda que seja, não irá te dar um grama a mais do que puder suportar.

Ela costuma saber bem onde quer chegar. Traça com passos certeiros os caminhos que decide trilhar. Sorte sua, vez ou outra, ela se deixa perder em um olhar mais firme. Pode ter sido por curiosidade que tenha aceitado saciar a sede dos seus lábios. Pode ter sido por desejo que tenha abaixado a guarda na segurança dos seus abraços. Pode ter sido por suas confissões que ela tenha se permitido ficar tão à vontade sob os seus sentidos. Não perca tempo tentando decifrá-la. Ela vai saber te deixar sem palavras - numa discussão ou na cama. Ela vai saber te deixar sem ar - numa discussão ou na cama. Ela vai conseguir te tirar do sério - numa discussão ou na cama. É que ela se abre ao que queima, traz e leva fogo quando decide não resistir. Seu corpo é posse de suas escolhas, ainda que rendido ao seu toque. 

domingo, 1 de julho de 2018

Não tenha medo agora

O mundo se abriu para você, menina, e não precisa ter controle sobre isso agora. O novo se mostrará mesmo você achando que os seus olhos não estão preparados. Tudo que te trouxe até aqui servirá como força para ir além. Não se preocupe, o seu caminho já é tão lindo quanto a grandeza da sua existência. Acostume-se, em seu próprio tempo, com o que se abre a você.

Você nunca estará sozinha, menina. Sabe os abraços e lágrimas, as palavras e silêncios, os minutos e esperas dedicados aos que, verdadeiramente, estiveram contigo? Colha-os como o conforto que encherá seus dias, como um punhado de lembranças para aplacar a saudade. Haverá sempre mais de toda essa intensidade à sua espera quando precisar. Suas raízes estão fincadas na firmeza do que você já conhece tão bem.

A distância não vai definir o que você pode ser, menina. Não permita que a dor de uma ausência seja maior que a certeza do amor. Ainda que haja lágrimas no início da jornada, seu coração trará e levará sorrisos dos frutos que você mesma cultivou. Ah! Sobre isso, continue. Não tenha medo nunca de apertar os laços, apesar dos estragos que podem ser causados quando se desfazem. Eles - os estragos - não são para sempre, já os laços, ainda que precisem se afrouxar por um tempo, te permitirão tentar ser o que quiser sem qualquer medo de fracassar. 

Vai, menina, pode seguir. Os seus passos estarão sob os mesmos cuidados. Nunca houve pressa entre vocês maior do que a de se confortar e isso, te asseguro, não mudará. Você não perderá sua essência nem o que foi encontro, continua. Acalma o seu coração e continua. 

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Suporte

Você suporta um pouco mais, menina. Seu cansaço vai tentar te convencer que é arriscado levar, a lugares que insistem em abraçar a ignorância, um pedaço de luz que seja. Você pode, de repente, revelar o que se busca esconder com toda a mesquinharia de padrões confortáveis para quem se enxerga maior do que realmente é. Padrões, inclusive, que precisam esfregar em seu rosto o tempo todo o quanto será difícil não ser conformada com o que eles trazem. Mas, em meio a tantas negativas, forjaram também sua resistência.

Seja suporte, menina. Há tantas como você, inseguras sobre até que ponto podem escolher, marcadas por cortes profundos em suas intimidades, minadas ao se olharem, ainda que sozinhas, em seus próprios espelhos, incomodadas por não conseguirem se acomodar. Há tantas como você, buscando coragem também nos olhos chorosos daquelas que não conseguem se desprender do que tanto causa dor, gritando em silêncio que não cabem mais onde foram lançadas, não aceitando que o aceitável é se calar, é parar, é aceitar. Torne-se mão que seca lágrimas, que freia amarras, que acena por socorro, que segura a barra. Afinal, suas lágrimas também rolam, suas amarras também incomodam, suas fraquezas também precisam de ajuda franca. 

O mundo não precisa te suportar, menina. Seja agradável ao que te enxerga com as possibilidades da sua existência e não escute o que te emudece. Cuidar de si mesma é também se reconhecer da maneira que mais te deixar confortável. Se for preciso, confesse, àquelas que recebem do mundo o mesmo que você, todos os seus medos quando precisa se confrontar - até o de não conseguir mais ficar de pé na luta. Elas enfrentam as mesmas incertezas, ainda que tecidas em outros cenários.

O que te sustenta hoje, menina, é aquilo que suportou em si também o peso de precisar ser mais: outras meninas. Outras meninas que foram desenhando o poder que se pode alcançar sendo mulher. Outras meninas que, exaltadas entre si, são vistas bem pequenas mesmo em suas grandezas. Outras meninas que dizem o que sentem ou ainda não se sentem à vontade para isso. Outras meninas que não conseguem entender o porquê só porque não puderam fazer questionamentos. Outras meninas que, com olhos enganados, enxergam mais nas outras que em si próprias. Outras meninas que são entregues, são trocas, que são loucas, são fodas.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Vestiria nossos sorrisos

Se você ainda estivesse aqui, me levaria pra casa? Me pegaria pelas mãos e me indicaria uma nova direção? No caminho, sei, me diria que tudo vai ficar bem e secaria o meu pranto. Você poderia ir me contando um tanto das suas histórias antigas também. Me colorindo um pouco com seus tons que já conheço de cor. Andando ao meu lado, eu saberia entrar no seu passo. Eu te abraçaria pelos ombros e, quando passassem meus soluços, contaria um pouco sobre a vida com a dor de não te ter. E você me ouviria com atenção, com o dedo sobre a boca e os braços se apoiando. Enquanto seguíssemos sob o céu azul, de uma tarde comum, te juraria não permitir que se tornasse apenas dor o que já foi meu norte. 

Seria um breve desabafo sobre amar, sempre, saudades, pavor... Te contaria que há pouco descobri que nenhuma perda se cura por completo, basta uma coisa maior para que ela volte a apertar. E que ela (a dor) faz parte do que a gente constrói até mesmo em outros terrenos. Falaria que há tanto de você em mim que sua ausência também se tornou o que sou. Me tornei menor depois que conheci a grandeza da sua falta. Talvez, sentindo sua segurança, eu saberia recuperar minhas certezas. Eu te ajudaria a desviar das calçadas irregulares enquanto estivéssemos a seguir. Você me ensinaria a olhar com mais cautela para os lados antes de me decidir.

Eu iria querer reparar no céu que você insistiria em me mostrar. Os detalhes em todas as nuvens que não se repetiriam mais - assim como nós. Nada nos escaparia. Sempre soubemos nos envolver com nossas trocas. Você poderia me prometer que não iríamos nos cansar de continuar nossa caminhada? Não haveria uma estrada sequer para apenas um par de nossas pegadas. E, se o anoitecer se antecipasse e nos levasse a luz, sei que nada nos paralisaria. Seríamos as mãos apertadas enfrentando o que não se pode ver e se guiando mesmo sem reconhecer a trilha.

Buscaria seu cheiro, só para confirmar que não o esqueci mesmo por um dia que se foi nesse último ano. Você deixaria eu ficar por um tempo a mais com o nariz perdido no alto da sua cabeça? Murmurando, além de direção, te pediria cuidado. Teria que te contar como sinto falta da garantia de ter seu olhar, sua aprovação, sua orientação. Não choraria mais nessa hora. Daria um jeito de poder te assegurar umas boas risadas ainda. Fossem frouxas, de encher os olhos d'água, fossem perdidas, misturadas a quaisquer conversas.

Ah, quem me dera ter um pouco mais da paz de estar com você. Hoje, sem poder te encontrar, preciso aprender a vestir sorrisos, não mais sê-los.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

É bom que você saiba

Nossas estradas não vão nos ligar, baby. Nossos pés, que, sei, já pisaram sobre os mesmos cacos, não trilham os mesmos caminhos. Habitamos terras diferentes demais para traçar reencontros. Tô abrindo mão dos sobressaltos nas madrugadas e do celular o tempo todo ao meu lado. Não há mais como insistir sem precisar, antes, destruir do outro lado a admiração que nos atraiu um dia. É melhor parar por aqui, onde tudo parece inacabado, mas ainda há o que pode ser mantido de pé: um sorriso lembrando do outro. 

Quando damos a alguém um lugar em nós, vamos traçando um tanto de detalhes em nossas rotinas que nos tragam um pouco dessa pessoa para perto todo o tempo, e é difícil mesmo ir limpando esses vestígios de vez. Eu, de qualquer forma, não vou esperar que as coisas mudem muito a partir de agora para mim ou para você. A não ser entre o tal "nós" que poderia ter existido e vamos deixar de lado. O "nós" que não vai mais combinar um final de semana que não dará certo. O "nós" que não vai esperar a noite chegar para trocar palavras antes de dormir. O "nós" que não vai precisar pedir desculpas pela falta de sinal nos celulares e pelas viagens de última hora a trabalho. Vou continuar com as coisas que me enchem cabeça por aqui, e você, com as coisas que te enchem a cabeça por aí.

Não vou mais te imaginar se distraindo no meio do expediente ao receber uma foto inusitada, ou esboçando um sorriso para a nova promessa de vida fitness, ou ouvindo mil vezes aquela música que recortei para te encaixar. Não posso te pedir para ficar em um lugar que nunca esteve. Não posso te aceitar em um lugar que eu mesma não posso chegar. Continua a correr em seu mundo, um dia seus passos te levarão aonde planeja alcançar. Se precisar, dê a mão a quem estiver por mais perto. Eu consigo entender que não há culpa em nossa ausência. Não foi por faltar em nós que abandonamos nossas possibilidades, foi por desencaixe. Não vou te tornar maior nem menor do que realmente foi aqui, em mim.

Mantenha nossas trocas em algum lugar que não te cause incômodo - deixei as minhas só em memórias, excluí em todo o restante. Lembranças, às vezes, são mais bonitas que a realidade. Por sorte, não conseguimos carregar o que não nos esforçamos, ao menos um pouco, para manter por perto. Então, escuta o meu conselho: puxe um pedaço do que te fez sentir muito bem desde que me conheceu e guarde para quando precisar se lembrar de que é capaz de conquistar coisas que valem a pena. Pode rir. Gosto do jeito como você faz isso - e essa vai continuar sendo a minha intenção (estou fazendo meu olhar intimidador agora mesmo enquanto te escrevo). Nós nos encantamos porque fomos imperfeitos na medida um para o outro, com todo esse lance de sedução e interesse. Mas, não se preocupe, virão novos encontros capazes de nos tirar o sono e o fôlego num gesto só. Temos potencial.

Tá, a verdade é que, por dentro, ainda vou levar um tempo torcendo para que não seja bem assim como tem que ser. Afinal, ficaram coisas... o sofá à espera de ajuda, a viagem que merece ser feita a dois, o café da padaria, a agenda a ser organizada... Tenho mania de me habituar rápido aos planos. Entretanto, me tornei grande demais para não por a mão na massa e construir o que espero. Você me entende, né? Para continuar insistindo, teria que me encolher a tal ponto que me tornaria irreconhecível até para mim mesma, seguindo o que nos restasse. Desistir também é tentativa, sabia? Tentativa de, em lucidez, reconhecer que seguir o coração pode não ser a melhor escolha. Não é por falta de querer, é por necessidade de sentir o maior do mundo com os próprios sonhos.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Mais um pedido

Canta para mim esta noite? Escolha qualquer coisa que me faça sorrir antes que me perca em sonhos. Deixa eu ouvir sua voz arranhada recomeçar a mesma canção até encontrar o tom correto, isso também me fará mais feliz. Canta para mim esta noite, qualquer som me faz sentido quando sai dos seus lábios.

Sonha comigo o futuro? Não o futuro distante, de anos à frente do que temos agora. Há tanto projeto que não posso manter sem te ter. Sonha comigo o futuro para o almoço do próximo domingo, para a viagem em agosto à cidade em que você viveu por tanto tempo, para a lua certa para seu novo corte de cabelo, para mudar as violetas dos vasinhos. Sonha comigo o futuro do que me resta.

Deixa eu deitar em seu colo? Só até eu recuperar minha calma e convencer minha alma de que amar também é sorrir para o que não há. Deixa eu deitar em seu colo apenas para que seu cheiro esteja em mim quando eu me levantar e que eu tenha tempo para percorrer todas as suas sobras de pele com meus dedos enquanto você me faz cafuné.

Divide comigo a tua fé? Lembro que suas preces afugentavam pavores e te tornavam inabalável. Tenho tido medo de escuro. Na verdade, medo de não conseguir me afastar da falta de luz que me cerca quando não sei fugir dessa ausência. Divide comigo a tua fé só para tornar mais leve a espera pelo que virá.

Faz tua morada em mim? Não aqui, entre estas palavras ou em qualquer outro lugar que eu possa não caber mais, mas, em mim. Faz tua morada em mim. Onde eu possa te levar, te cantar e te contar, onde eu não te perca por ter medo nem por não saber te tocar. Faz tua morada em mim, aqui tudo quer te ver em paz, quer te ouvir sorrir, quer te ver viver.