quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

É bom que você saiba

Nossas estradas não vão nos ligar, baby. Nossos pés, que, sei, já pisaram sobre os mesmos cacos, não trilham os mesmos caminhos. Habitamos terras diferentes demais para traçar reencontros. Tô abrindo mão dos sobressaltos nas madrugadas e do celular o tempo todo ao meu lado. Não há mais como insistir sem precisar, antes, destruir do outro lado a admiração que nos atraiu um dia. É melhor parar por aqui, onde tudo parece inacabado, mas ainda há o que pode ser mantido de pé: um sorriso lembrando do outro. 

Quando damos a alguém um lugar em nós, vamos traçando um tanto de detalhes em nossas rotinas que nos tragam um pouco dessa pessoa para perto todo o tempo, e é difícil mesmo ir limpando esses vestígios de vez. Eu, de qualquer forma, não vou esperar que as coisas mudem muito a partir de agora para mim ou para você. A não ser entre o tal "nós" que poderia ter existido e vamos deixar de lado. O "nós" que não vai mais combinar um final de semana que não dará certo. O "nós" que não vai esperar a noite chegar para trocar palavras antes de dormir. O "nós" que não vai precisar pedir desculpas pela falta de sinal nos celulares e pelas viagens de última hora a trabalho. Vou continuar com as coisas que me enchem cabeça por aqui, e você, com as coisas que te enchem a cabeça por aí.

Não vou mais te imaginar se distraindo no meio do expediente ao receber uma foto inusitada, ou esboçando um sorriso para a nova promessa de vida fitness, ou ouvindo mil vezes aquela música que recortei para te encaixar. Não posso te pedir para ficar em um lugar que nunca esteve. Não posso te aceitar em um lugar que eu mesma não posso chegar. Continua a correr em seu mundo, um dia seus passos te levarão aonde planeja alcançar. Se precisar, dê a mão a quem estiver por mais perto. Eu consigo entender que não há culpa em nossa ausência. Não foi por faltar em nós que abandonamos nossas possibilidades, foi por desencaixe. Não vou te tornar maior nem menor do que realmente foi aqui, em mim.

Mantenha nossas trocas em algum lugar que não te cause incômodo - deixei as minhas só em memórias, excluí em todo o restante. Lembranças, às vezes, são mais bonitas que a realidade. Por sorte, não conseguimos carregar o que não nos esforçamos, ao menos um pouco, para manter por perto. Então, escuta o meu conselho: puxe um pedaço do que te fez sentir muito bem desde que me conheceu e guarde para quando precisar se lembrar de que é capaz de conquistar coisas que valem a pena. Pode rir. Gosto do jeito como você faz isso - e essa vai continuar sendo a minha intenção (estou fazendo meu olhar intimidador agora mesmo enquanto te escrevo). Nós nos encantamos porque fomos imperfeitos na medida um para o outro, com todo esse lance de sedução e interesse. Mas, não se preocupe, virão novos encontros capazes de nos tirar o sono e o fôlego num gesto só. Temos potencial.

Tá, a verdade é que, por dentro, ainda vou levar um tempo torcendo para que não seja bem assim como tem que ser. Afinal, ficaram coisas... o sofá à espera de ajuda, a viagem que merece ser feita a dois, o café da padaria, a agenda a ser organizada... Tenho mania de me habituar rápido aos planos. Entretanto, me tornei grande demais para não por a mão na massa e construir o que espero. Você me entende, né? Para continuar insistindo, teria que me encolher a tal ponto que me tornaria irreconhecível até para mim mesma, seguindo o que nos restasse. Desistir também é tentativa, sabia? Tentativa de, em lucidez, reconhecer que seguir o coração pode não ser a melhor escolha. Não é por falta de querer, é por necessidade de sentir o maior do mundo com os próprios sonhos.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Mais um pedido

Canta para mim esta noite? Escolha qualquer coisa que me faça sorrir antes que me perca em sonhos. Deixa eu ouvir sua voz arranhada recomeçar a mesma canção até encontrar o tom correto, isso também me fará mais feliz. Canta para mim esta noite, qualquer som me faz sentido quando sai dos seus lábios.

Sonha comigo o futuro? Não o futuro distante, de anos à frente do que temos agora. Há tanto projeto que não posso manter sem te ter. Sonha comigo o futuro para o almoço do próximo domingo, para a viagem em agosto à cidade em que você viveu por tanto tempo, para a lua certa para seu novo corte de cabelo, para mudar as violetas dos vasinhos. Sonha comigo o futuro do que me resta.

Deixa eu deitar em seu colo? Só até eu recuperar minha calma e convencer minha alma de que amar também é sorrir para o que não há. Deixa eu deitar em seu colo apenas para que seu cheiro esteja em mim quando eu me levantar e que eu tenha tempo para percorrer todas as suas sobras de pele com meus dedos enquanto você me faz cafuné.

Divide comigo a tua fé? Lembro que suas preces afugentavam pavores e te tornavam inabalável. Tenho tido medo de escuro. Na verdade, medo de não conseguir me afastar da falta de luz que me cerca quando não sei fugir dessa ausência. Divide comigo a tua fé só para tornar mais leve a espera pelo que virá.

Faz tua morada em mim? Não aqui, entre estas palavras ou em qualquer outro lugar que eu possa não caber mais, mas, em mim. Faz tua morada em mim. Onde eu possa te levar, te cantar e te contar, onde eu não te perca por ter medo nem por não saber te tocar. Faz tua morada em mim, aqui tudo quer te ver em paz, quer te ouvir sorrir, quer te ver viver.



terça-feira, 21 de novembro de 2017

Feito elas

Somos esse conjunto de dores e sabores que nos moldam dia após dia, em meio a escolhas e arrependimentos, a acertos e indecisões. Num caber maior que o imaginar, somos forjadas em prantos quentes e prazeres sóbrios. Nós somos constelações grandes demais, particulares demais.

Costuramos uma porção de marcas. Marcas do tempo, daquela ausência constante. Marcas de sol, daquela caminhada num dia mais quente. Marcas de estrias, de um corpo que se abriu ao que precisava. Marcas de rugas, de choros silenciosos no chuveiro e gargalhadas estrondosas entre nós. Marcas de desencanto, por tantos começos com finais exatamente iguais.

Há colo em meio a nossas dores, por sorte, mesmo contradizendo a tantos rumores, não ficamos menos fortes quando nos mostramos doces. Às vezes, sem escolhas, somos escombros pintados em arte, noutras, a arte de se desmanchar em cacos. Mesmo disfarçadas ou entregues, acredite, não somos apenas o que se pode ver. Se não nos tocar, não seremos nem o que se pode supor sentir.

Não ouse nos limitar. Não há definições em nossos vestidos, nem em nossos cabelos, nem nas cores dos nossos batons (ou na ausência deles), nem nos livros em nossas prateleiras, nem nos pesos em nossas balanças, nem nos amores que buscamos viver (em um dia ou numa vida), nem nas vezes que desistimos, nem nas vezes que desafiamos. 

Trouxemos sempre mais que pedaços de projeções, de conteúdos inferiores, de dores e passados. Há porções frescas do que somos sendo descobertas por nós mesmas a todo instante. Contentem-se com o vislumbrar de toda essa grandeza de mulheres comuns que inspiram até mesmo o mundo a parar de girar.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Antes que eu me esqueça

Senta aqui, do lado de cá. Não quero olhar seus olhos, eles não são mais nada para mim. Eu preciso, na verdade, me desculpar pelo monstro que te tornei. Ele também tem me assustado. Nunca foi minha intenção contribuir para que se tornasse essa pessoa tão mesquinha e vazia. Não, não comece a falar. Ainda não terminei. 

Faz algum tempo que não sou mais seu número. Cresci. Você, não. Não sei se por não querer, ou não poder, mas o fato é que me tornei maior do que pode suportar. Maior até do que já pude supor, confesso, do tamanho dos sonhos que posso construir. E Deus me livre de voltar a ser menor. Quanto ao mérito por esse crescimento, não vou te dar. Nem um grama. Ele é todo meu. Eu me forjei. Eu fui forjada.

Eu quis sair desse lugar te aplaudindo pelo ser que foi há algum tempo. Quis deixar minha mão pendente para segurar uma amizade. Quis saber se as coisas ficariam bem com você. Mas, com tudo que chegou a mim, não preciso. Na realidade, mais do que isso, você não merece, não com todo esse desejo de me machucar.  Não merece sequer se tornar uma lembrança gostosa, uma saudade qualquer. Decidi que tudo que preciso manter de você hoje em dia é aquela carta, com letras marcadas,  em que tentou destilar toda sua pequenez contra a minha autoestima. Preferi ser compreensiva à sua dor e imaginar que uma agressão tão gratuita só poderia vir de quem já traz feridas muito feias consigo.

Acho uma pena que não exista orações e estrofes mais bonitas para desenhar o que nos aconteceu. Acho mesmo. Entretanto, se tivesse conseguido vislumbrar tudo que me vem agora, talvez não tivesse te blindado de toda a minha frustração com silêncios, olhares ou súplicas antes. Você me subestimou ao me colocar como alguém que aceitaria viver só com o seu desamor por toda vida. Até tentei, realmente, em todas as vezes que insisti "porque a gente tinha construído um laço", que continuei "até pelo menos por mais alguns anos quando as coisas deverão se acertar" e que engoli minhas dores "porque seu jeito era assim mesmo".

Há algumas marcas por aqui, e faço ideia do que se tornarão. São cortes profundos demais, talvez virem cicatrizes grandes demais. Contudo, ouvi de alguém, que tem sentimentos mais bonitos por mim que qualquer coisa que você já conseguiu nutrir, que "cicatrizes nos constroem! E a gente usa esse amor aqui pra ajudar a cicatrizar". São essas as certezas que têm me ajudado a seguir pelo que sempre fui, alguém que se move por afeto

Não, não tem nada a ver com ressentimentos este nosso reencontro. Nunca fui do sabor amargo, você já me provou por muito tempo para saber que, mesmo com mil defeitos, esse não faz o meu estilo. Eu não me importo mais com o que você constrói ou se permite. Nenhuma destas minhas palavras, sinceramente, querem te culpar. Não entenda esta conversa  desta  maneira. Tudo que estou te falando é para o meu próprio bem, do qual já havia me esquecido desde quando comecei a me contentar com esse nada. A minha maior sorte tem sido, mesmo recebendo tão pouco de você, não me julgar incapaz de conseguir mais. Meu caminho é cheio de amor, o seu, da incapacidade de amar.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Como ela chegou

Ela foi rápida ao cruzar a sala de cabeça baixa. Ao sair do banheiro, com o nariz vermelho, reclamou de uma alergia, ou qualquer coisa assim, que lhe causava tanta incômodo nos dias frios. Não era verdade. O rubor da sua face vinha dos olhos, um pouco alterados, nada demais, apenas o suficiente para que tivesse certeza de que havia desatado em lágrimas há pouco. Tentou não conversar. Respondeu tudo monossilabicamente, sem se desviar de um falso interesse à tela. Pude notar, ao engatar em mais de duas ou três palavras, um embargo em sua voz trêmula, como se o choro ainda estivesse ali, escorrendo por dentro, esperando uma nova brecha para se apresentar. Chorou sufocada no banheiro porque não houve um só lugar em seu corpo que não estivesse possuído por aquela dor, se acumulando a tantas outras já disfarçadas com excesso de trabalho.

Eu a ouvi em seu silêncio. Reconheci todo o seu pesar sem qualquer fala. Ela, suponho, saiu sem olhar para trás, com passos firmes, cabeça erguida, mãos nos bolsos do casaco, se escondendo sob os óculos escuros e um sorriso triste. Não deve ter se virado para trás e, se não me engano, se despediu com mais intensidade do que havia planejado. Vazia, tinha se desfeito da última caixa na noite passada. Vazia, deve ter querido te contar sobre isso dentro daquele último abraço, mas o frio entre vocês foi ainda maior que o que vinha de fora. Ela quis, ainda, te dizer que bastava. Bastava de continuar se fazendo tão pequena por uma culpa que não deveria levar sozinha. Bastava de se sentir menos que você e todo seu orgulho de macho ferido. Bastava de engolir em seco para não te magoar, enquanto você fazia questão de marcá-la bem profundamente com dor sempre que possível. Quis, mas não o fez. 

Chegou com o cabelo molhado, pude ver que buscou uma toalha por ali também. A chuva deve tê-la acompanhado até bem distante, sem desvio, sem procura por abrigo, enquanto dissolveu tudo que pensou jogar sobre você. E preferiu se manter sem dizer nada, tive certeza, quando recorreu aos fones de ouvidos. Lia em seu cansaço que havia escutado além do que julgava merecer. Perdida em pensamentos, vez ou outra, franziu os lábios num riso invertido. Com olhar distante, notei que tentava guardar alguma coisa. Algo que me pareceu específico para que não lhe restasse qualquer dúvida. Uma pena, mas não pude ver o que lhe sobrou. O pior de tê-la observado era reconhecer que seguiria sem sentir muito por algum tempo. Sem sentir pela mulher que se fez para agradar todos os seus desejos, saciando seu corpo no calor do dela, ou pela menina que acreditou que você seria muito mais do que realmente é. Contudo, com o que vi, ela iria realmente sentir muito quando conseguisse aceitar que não caberia num espaço tão pequeno e entender que a mulher ardente era a mesma menina sonhadora perdida em todo aquele vazio. Ainda que houvesse mais em suas mãos, quem dera se esse tão pouco tivesse vindo de outra direção.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Dói e nem sempre passa

Há pouco instante, me peguei pensando em você. Comecei com café com pão do fim da tarde, que ainda me faz tanta falta, e fui parar em sua voz que, assumo, precisei puxar do fundo da memória. Ela estava escondida ali, talvez por eu não conseguir imaginar o que me diria para me fazer ser um pouco mais nesses últimos dias. Enfim, voltei ao café ralo e doce com pão ou biscoito, olhei de longe, doeu, saí.

Tô tentando fugir mesmo. Mas parece impossível me desprender. Um programa na televisão da lanchonete, há poucos dias, me trouxe você. Acho que foi a vinheta que me acordou milhões de vezes aos domingos antes que vc conseguisse abaixar o volume do aparelho. Foi tão real a minha dor que não me contive, e ali mesmo permitir que ela falasse, escancarada em lágrimas.

Sabe o que mais me trouxe você dias atrás? O calendário. Como os dias têm passado rapidamente. Sei que você reclamaria por já estarmos tão pertos da "fogueira" e de que, para o Natal, "tá um pulo". E foi aí que me doeu novamente. As datas serão as mesmas de todos os outros anos, e precisarei me lembrar em todas que você não estará ao meu lado. Até no Natal, "a festa mais triste do ano, com pouca gente com tanto e tanta gente sem nada".

E a minha dor de cabeça? Ela veio, mesmo sem aquela latinha de Vick ao lado para acompanhar. Fiquei tão perdida. Pensei em te ligar. E não pude. Não poderei nunca mais mesmo, não é? Até se a dor for muito grande e eu não conseguir, sequer, abrir meus olhos. E, pensar assim, a tornou tão grande que não consegui, sequer, abrir meus olhos. Nem para chorar.

Outra besteira que me levou aos prantos, você não vai nem acreditar: meu travesseiro velho. Aquele cheio de bolinhas que você me deu há tanto tempo. Encontrá-lo me levou às noites em que te esperava na cama enquanto a novela, ou o programa depois dela, não acabava. Quis apertar bem forte contra meu rosto em busca de qualquer pouquinho do seu cheiro que pudesse estar escondido por ali ainda. Não encontrei nada além do tecido molhado por mim.

Você não imagina o que as manhãs de sol têm me feito também. Na casa nova, tudo é muito claro, do jeito que você sempre gostou que fosse. Não há um só lugar que falte luz, exceto por mim. Fica difícil me manter irradiante o tempo todo quando penso em como esse brilho cairia tão bem em você. Você conseguiria puxar a cadeira por toda a sala em sua busca por um pouco do "sol que faz bem pra saúde". Eu iria amar ver essa cena. Todos os dias.

E, talvez por isso, reconheço não ter sido nunca seu amor que me fez mal, mas, sim, não tê-lo. Não importa a direção, sigo sem seguir qualquer caminho. E, por tudo isso, preciso viver ao máximo, para não notar que parte de mim também morreu.